Expressões no Trabalho
Ele é tipo 8 ou 80: é sim ou não!
Uma reflexão sobre o pensamento binário e a qualidade das decisões
em contextos ambíguos, complexos e politicamente sensíveis.
8 ou 80: o que existe entre eles?
A maturidade decisória no espaço entre os extremos
No ambiente corporativo contemporâneo, marcado por pressão por resultados, velocidade e exposição constante, decisões tendem a ser tomadas em lógica binária: ou funciona ou não funciona; ou é sucesso ou é fracasso; ou concordo totalmente ou rejeito completamente. Essa mentalidade, popularmente chamada de “8 ou 80”, oferece conforto psicológico pela simplicidade, mas cobra um preço alto em qualidade decisória, inovação e sustentabilidade de resultados.
Para executivos que atuam no terceiro nível de reporte — suficientemente próximos da operação para sentir suas tensões e suficientemente próximos da estratégia para sofrer suas ambiguidades — a pergunta crítica não é qual extremo escolher, mas o que existe entre eles.
Esse “entre” é o espaço da maturidade executiva.
A armadilha cognitiva dos extremos
A neurociência e a psicologia cognitiva são claras: o pensamento dicotômico é uma heurística primitiva, útil em contextos de sobrevivência, mas limitada em ambientes complexos (Kahneman, 2012). Ele reduz a ansiedade momentânea, porém empobrece a análise.
No mundo executivo, o pensamento “8 ou 80” se manifesta de várias formas:
Esse padrão cognitivo, quando não questionado, gera decisões rápidas, porém frágeis, e culturas organizacionais defensivas.
Complexidade exige pensamento graduado
Organizações são sistemas adaptativos complexos. Nesse tipo de sistema, relações não são lineares, causas não produzem efeitos diretos e resultados emergem da interação entre múltiplas variáveis (Snowden & Boone, 2007).
Executivos maduros compreendem que:
Entre o 8 e o 80 existe o espectro da realidade, onde vivem as decisões de maior impacto.
O “entre” como espaço de liderança consciente
O que diferencia líderes operacionais de líderes estratégicos não é o acesso à informação, mas a capacidade de sustentar tensões sem simplificá-las prematuramente.
Esse espaço intermediário exige três competências centrais:
1. Auto-observação executiva
Executivos eficazes observam como pensam antes de decidir. Reconhecem seus vieses, gatilhos emocionais e pressões internas por respostas rápidas (Argyris, 1991).
Pergunta-chave:
Estou escolhendo um extremo porque ele é correto ou porque ele alivia minha ansiedade decisória?
2. Pensamento sistêmico
Decisões isoladas raramente resolvem problemas sistêmicos. O “entre” exige leitura de impactos cruzados: cultura, governança, risco, pessoas e reputação (Senge, 2006).
Pergunta-chave:
O que esta decisão otimiza — e o que ela sacrifica silenciosamente?
3. Capacidade de diálogo estratégico
O espaço entre os extremos é desconfortável e, por isso, precisa ser conversado, não imposto. Ambientes de segurança psicológica permitem explorar nuances sem que isso seja confundido com fraqueza (Edmondson, 2018).
Pergunta-chave:
Estamos debatendo para vencer argumentos ou para ampliar a qualidade da decisão?
Implicações práticas para executivos de terceiro nível
Executivos que reportam a diretores e influenciam decisões que chegam ao CEO ocupam uma posição crítica: traduzem complexidade para cima e executabilidade para baixo.
Quando operam no “8 ou 80”, tendem a:
Quando atuam no “entre”, tornam-se:
Nesse sentido, o “entre” não é indecisão. É disciplina cognitiva.
Conclusão: maturidade não é escolher extremos, é sustentar nuances
Em um mundo corporativo que premia respostas rápidas, a verdadeira sofisticação executiva está em resistir à tentação da simplificação excessiva.
Entre o 8 e o 80 existe:
Executivos que dominam esse espaço não são os mais barulhentos, nem os mais dogmáticos — são os que decidem melhor quando o problema não é simples.
E hoje, quase nunca é.
Referências Bibliográficas
Exercite-se
Do 8 ao 80:
Guia Prático para Decisões Executivas Mais Maduras
Reflexão para sair do pensamento binário e ampliar a qualidade das decisões em contextos ambíguos, complexos e politicamente sensíveis.
1. Identifique o padrão “8 ou 80”
Antes de decidir, observe se surgem frases internas ou externas como:
📌 Alerta executivo: sempre que o problema parece simples demais,
provavelmente está mal formulado.
2. Expanda o campo de análise
Substitua a pergunta binária por perguntas graduadas:
👉 Objetivo: mapear o espectro, não escolher lados.
3. Avalie impactos sistêmicos
Use este mini-checklist antes de decidir:
> Decisão madura considera efeitos colaterais, não apenas resultados diretos.
4. Observe a si mesmo
Pergunta central de auto-observação executiva:
Estou buscando a melhor decisão ou a decisão que reduz minha
ansiedade agora?
!!! Reconhecer pressa, medo ou necessidade de controle é parte da
competência de liderança.
5. Use o diálogo como ferramenta estratégica
No espaço entre os extremos, o diálogo é essencial.
Estimule conversas que explorem:
>> Ambientes seguros produzem decisões mais robustas.
6. Decida — com consciência
Decidir no “entre” não significa postergar indefinidamente. Significa:
Líderes maduros não eliminam ambiguidades — eles decidem apesar delas.
Fechamento para líderes
Entre o 8 e o 80 existe o espaço onde:
A liderança amadurece
A governança se fortalece
A estratégia se torna sustentável
Esse espaço não é confortável.
Mas é exatamente nele que vivem as decisões que realmente importam.