Expressões no Trabalho

“Trocar o pneu com o carro andando”:
                     mitos, fatos e riscos reais na gestão executiva*


A expressão “trocar o pneu com o carro andando” tornou-se uma das metáforas mais recorrentes no vocabulário executivo contemporâneo. Usada para descrever mudanças estratégicas realizadas em plena operação, ela costuma carregar um tom de heroísmo, urgência e adaptabilidade extrema. Em muitos contextos, é apresentada como sinônimo de agilidade, resiliência e capacidade de execução sob pressão.
 

No entanto, quando analisada de forma mais rigorosa — sob a ótica da gestão, da neurociência da decisão e da governança organizacional — essa metáfora revela tanto virtudes quanto riscos significativos. O problema não está na imagem em si, mas no uso acrítico da ideia como norma permanente de gestão.
 

Este artigo propõe uma reflexão objetiva: o que essa metáfora realmente representa, quais são seus mitos mais comuns e quais fatos costumam ser ignorados quando ela se torna prática recorrente no cotidiano profissional.
 

 

 

O apelo da metáfora no mundo executivo

 

A metáfora é poderosa porque dialoga diretamente com o contexto atual dos negócios: volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade (VUCA). Em ambientes onde parar “o carro” parece inviável — seja por pressão de mercado, acionistas ou resultados trimestrais — a imagem de seguir em movimento enquanto se ajusta o percurso transmite:

  • senso de urgência e pragmatismo;
  • foco em execução e continuidade operacional;
  • valorização da adaptabilidade e da improvisação inteligente.

Não por acaso, organizações em transformação digital, reestruturações rápidas ou processos de turnaround frequentemente recorrem a essa narrativa.
 

Mitos e fatos sobre “trocar o pneu com o carro andando”
 

Mito 1 — É sempre sinal de agilidade e competência

Fato:
Em alguns casos, sim. Em outros, é apenas um sintoma de planejamento insuficiente. Agilidade não é sinônimo de improvisação contínua. Organizações maduras distinguem claramente o que exige adaptação em tempo real do que deveria ter sido antecipado por cenários, simulações e testes.

Agilidade estratégica pressupõe preparação prévia, não apenas reação rápida.
(Doz & Kosonen, 2010)


 

Mito 2 — Executivos experientes conseguem “dar conta” da complexidade

Fato:
A neurociência mostra que decisões tomadas sob pressão contínua elevam o viés cognitivo, reduzem a capacidade de reflexão sistêmica e aumentam a probabilidade de erros estratégicos. Mesmo líderes experientes não estão imunes à fadiga decisória.

Sob estresse prolongado, o cérebro privilegia respostas rápidas e familiares, em detrimento de análises mais profundas.  (Kahneman, 2011; McEwen, 2007)

 

Mito 3 — Parar para revisar é sinal de fraqueza

Fato:
Pausas estratégicas não representam fragilidade, mas maturidade de governança. Conselhos, boards e executivos seniores sabem que interromper momentaneamente a operação para revisar premissas pode evitar riscos exponenciais no médio e longo prazo.

Sistemas complexos que não criam espaços de revisão tendem a falhar de forma abrupta, não gradual.
(Taleb, 2012)

 

 

Mito 4 — A organização aprende mais no caos

Fato:
O aprendizado organizacional ocorre com mais consistência em ambientes de segurança psicológica, clareza de papéis e ciclos estruturados de feedback. Mudanças contínuas “em movimento” podem gerar adaptação superficial, mas não aprendizagem profunda.

Ambientes de alta pressão contínua reduzem a disposição para experimentação e aprendizado genuíno.
(Edmondson, 2018)

 

 

Quando a metáfora faz sentido
 

A expressão não deve ser descartada, mas contextualizada. Ela pode ser válida quando:

  • o custo de parar é claramente maior que o risco de seguir ajustando;
  • existem rails claros de governança, risco e decisão;
  • a mudança é incremental, não estrutural;
  • há liderança experiente, alinhamento e comunicação transparente.

Nesses casos, “trocar o pneu com o carro andando” é uma estratégia consciente, não um reflexo automático.

 

Quando a metáfora se torna perigosa
 

Ela se torna um risco real quando:

  • vira justificativa permanente para ausência de planejamento;
  • normaliza sobrecarga crônica das lideranças;
  • desconsidera impactos humanos, cognitivos e culturais;
  • substitui reflexão estratégica por urgência constante.
     

Nesse cenário, a metáfora deixa de representar adaptabilidade e passa a simbolizar improvisação institucionalizada.

 

 

Uma reflexão final para executivos 
 

Executivos que operam entre a estratégia e a execução carregam uma responsabilidade adicional: traduzir urgência em direção, não apenas em movimento.

O verdadeiro desafio não é trocar o pneu com o carro andando, mas saber quando é prudente reduzir a velocidade, parar em segurança e redesenhar o caminho.

 

Maturidade executiva não está em nunca parar — está em saber quando continuar, quando ajustar e quando interromper para proteger o sistema como um todo.

 

Referências bibliográficas

  • Doz, Y. L., & Kosonen, M. (2010). Embedding Strategic Agility. Long Range Planning.
  • Edmondson, A. (2018). The Fearless Organization. Harvard Business Review Press.
  • Kahneman, D. (2011). Thinking, Fast and Slow. Farrar, Straus and Giroux.
  • McEwen, B. S. (2007). Physiology and neurobiology of stress and adaptation. Physiological Reviews.
  • Taleb, N. N. (2012). Antifragile: Things That Gain from Disorder. Random House.


    *Curadoria: Padi CCT