Expressões no Trabalho
“Ele é duro, mas traz resultados”
Mitos, fatos e os custos invisíveis de normalizar essa lógica na liderança*
“Ele é difícil, duro no trato, pressiona muito… mas traz resultados.”
Essa frase é recorrente em comitês executivos, avaliações informais de liderança e discussões sobre performance. Frequentemente usada como justificativa pragmática, ela sugere que resultados financeiros ou operacionais compensariam — ou legitimariam — estilos de liderança rígidos, agressivos ou pouco empáticos.
O problema não está em reconhecer a importância de resultados. O risco surge quando essa expressão se transforma em critério tácito de tolerância comportamental, criando uma dicotomia perigosa: resultado versus pessoas, como se fossem variáveis excludentes.
Este artigo propõe uma análise madura: quais são as vantagens aparentes dessa lógica e quais riscos reais emergem quando ela é normalizada na organização?
O apelo da expressão no mundo executivo
Em ambientes de alta pressão por metas, margens e crescimento, líderes “duros” costumam ser associados a:
No curto prazo, esse perfil pode, de fato, gerar ganhos mensuráveis. Em situações de crise, turnaround ou queda acentuada de resultados, estilos mais diretivos e exigentes podem trazer ordem, foco e execução acelerada.
É justamente essa eficácia imediata que torna a expressão tão sedutora — e tão arriscada.
Mitos e fatos sobre “ele é duro, mas traz resultados”
Mito 1 — Resultados justificam o estilo
Fato:
Resultados precisam ser analisados no tempo e no sistema, não apenas no trimestre. A literatura mostra que estilos excessivamente coercitivos tendem a gerar performance de curto prazo à custa de desgaste humano, perda de engajamento e fragilização da cultura.
Lideranças coercitivas entregam resultados rápidos, mas corroem desempenho sustentável. (Goleman, 2000)
Mito 2 — Dureza é sinal de força executiva
Fato:
Dureza não é sinônimo de força, mas de estratégia comportamental específica. Força executiva sustentável está mais associada à clareza, consistência e capacidade de engajar do que ao medo como mecanismo de controle.
O uso recorrente do medo reduz a iniciativa e a inteligência coletiva. (Edmondson, 2018)
Mito 3 — Ambientes duros formam equipes mais fortes
Fato:
Ambientes de pressão contínua tendem a formar equipes mais reativas, não mais fortes. O custo aparece em turnover silencioso, conformidade superficial, burnout e redução da inovação.
Pressão crônica compromete aprendizado, colaboração e criatividade. (McEwen, 2007)
Análise dos impactos por dimensão
📉 1. Impacto econômico
Vantagens aparentes
Riscos reais
Custos humanos mal geridos se convertem, inevitavelmente, em custos financeiros.
(Pfeffer, 2018)
👥 2. Impacto social (interno)
Ambientes onde “ser duro” é legitimado tendem a confundir respeito com submissão.
📣 3. Impacto mercadológico
A reputação interna precede a reputação externa.
(Cable & Turban, 2003)
♟ 4. Impacto estratégico
Estratégia ruim prospera em ambientes onde discordar é perigoso.
(Janis, 1982; Kahneman, 2011)
🧠 5. Impacto no ambiente de trabalho
Quando a “dureza” pode fazer sentido — e quando não
Pode fazer sentido:
Torna-se perigoso quando:
Reflexão final para executivos seniores
Executivos maduros sabem que resultado sem sustentabilidade é passivo futuro.
A pergunta relevante não é se um líder “traz resultados”, mas:
a que custo, por quanto tempo e com que impactos colaterais?
Normalizar a expressão “ele é duro, mas traz resultados” é aceitar uma lógica de curto prazo que, cedo ou tarde, cobra seu preço — econômico, humano e estratégico.
Liderança de alto nível não escolhe entre pessoas e resultados.
Ela constrói resultados por meio das pessoas — e não apesar delas.
Referências bibliográficas
*Curadoria: Padi CCT